O mal maior
Pratico a cidadania brasileira há exatos 60 anos. Durante a maior parte desse tempo, fui otimista, acreditei em um país melhor, mais justo, mais feliz. Mesmo nos momentos mais adversos, como nos anos da ditadura militar, jamais deixei de sonhar, de fazer planos, de enxergar no fim do túnel a volta por cima e entender que todas as nossas provações serviriam de inspiração e bandeira para chegarmos, enfim, à terra prometida.
Dois mandatos do presidente Lula conseguiram mudar meu estado de espírito. Um profundo desânimo substituiu meus pensamentos positivos e, pela primeira vez na vida, me sinto tentado a entregar os pontos. Nosso ex-metalúrgico falastrão conseguiu inocular no Brasil um vírus devastador, capaz de exterminar os valores fundamentais que lastreiam uma nação de verdade. Os efeitos da doença são cada vez mais evidentes e graves. Para tornar tudo pior, a maioria dos brasileiros não percebe o mal que se alastra e festeja as supostas vitórias que o governo alardeia, mesmo desconfiando que há algo de podre no ar.
Enquanto se discute o crescimento do PIB, a taxa de inflação, o avanço das exportações, o acordo com o Irã, a educação fica em terceiro plano, a ética é ridicularizada, as leis são solenemente ignoradas, fins espúrios justificam meios injustificáveis, os canalhas são tolerados, prega-se a divisão do país entre pobres e ricos, brancos e negros, contras e a favor do que preconiza o nosso grande líder. Defende-se furiosamente a intolerância como virtude dos fortes, o cinismo como atributo inerente ao político bem sucedido, a grandeza de caráter como característica dos fracos, a mentira como hábito saudável e necessário.
Nunca na história deste Brasil foi tão fácil e proveitoso roubar, enganar, trair, mentir, sem a menor ameaça de punição. Ainda que os delitos sejam filmados, os culpados confessem, e, até mesmo, a justiça os condene. Não há salvação para um país sem valores e princípios, garante-nos a História, não importa a pujança econômica do estado ou a satisfação momentânea dos seus cidadãos. As terríveis conseqüências desse período de trevas podem tardar, mas acabam caindo sobre todos nós, culpados e inocentes. São feridas profundas, que levam muito tempo para cicatrizar e significam um enorme retrocesso na nossa busca por uma pátria melhor.
Por tudo que vejo, acredito, infelizmente, na vitória da continuidade nas próximas eleições. Na verdade, aposto em um acirramento de todos os pontos negativos do governo atual, piorando o que já é ruim.
Quanto a entregar os pontos, como disse no início desse texto, esqueçam! Fico só na tentação. Sigo em frente, acreditando que as coisas podem mudar e brigando para que elas mudem. Recomendo fortemente que todos façam o mesmo, especialmente no próximo dia 31 de outubro.
Paulo Eboli
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